Adaptação digital e vendas pela internet não impedem tombo de serviços no PIB

Adaptação digital e vendas pela internet não impedem tombo de serviços no PIB

Quando a pandemia do novo coronavírus levou ao fechamento temporário da academia de ginástica onde trabalha, o personal trainer Walter Silva, de 35 anos, viu seu faturamento desabar para menos da metade em abril. Ele lançou mão de aulas online para tentar estancar as perdas, mas não conseguiu manter os ganhos no nível pré-crise. “Em julho, quando a academia reabriu, eu estava próximo de 70% do meu faturamento”, revela.

A situação de Walter ilustra bem o que aconteceu com diversos profissionais e comerciantes durante o período de restrição de funcionamento de diversos estabelecimentos. Muitos tentaram adaptações como vendas pela internet, entregas e atendimento em domicílio. O número de lojas exclusivamente virtuais, por exemplo, cresceu mais de 40%, segundo levantamento da PayPal Brasil e BigData Corp. Em muitos casos, essas adaptações ajudaram, mas não foram suficientes para compensar as perdas da economia.

A paralisação das atividades ajudou a puxar a queda histórica do setor de serviços no segundo trimestre – um componente que representa cerca de dois terços do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. O setor inclui segmentos como comércio, salões de beleza, escolas, escritórios, saúde, cinemas, restaurantes, hotéis, transporte, entre outros. Na comparação com o trimestre anterior, o recuo foi de 9,7%. Já em relação a 2019, o tombo foi ainda maior, de 11,2%.

“Uma parte relevante do setor de serviços depende da mobilidade social”, explica Natalie Victal, economista da Garde. “A gente está falando de resultados de abril a junho. Por mais que as empresas tenham tentado compensar com inovação, estávamos no auge do isolamento social. As pessoas não saíam e não consumiam serviços”, acrescenta.

O que esperar daqui para frente

As aulas na academia onde Walter Silva trabalha como personal trainer já foram retomadas, mas o movimento ainda não voltou ao patamar pré-crise. Ele segue com algumas aulas online, e prevê que parte das mudanças trazidas pela pandemia não devem ser passageiras.

“Tenho ainda clientes que continuam com aula virtual. Uma falou que não vai voltar para a academia por ter perdido o emprego. Outro não tem confiança de voltar por causa do vírus, e outro está em home office e disse que não compensa ir até a academia”, relata o profissional.

Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, afirma que o setor deve passar por uma recuperação lenta nos próximos meses. “O psicológico afeta muito. Ainda não temos uma trajetória de queda do contágio. Talvez tenhamos até a imunização de rebanho antes da vacina. E isso preocupa e afeta muito o setor de serviços”.

Ainda que a expectativa seja de retorno gradual das atividades, Victal comenta que parte das perdas do setor são irreparáveis. “Serviços como o de cabeleireiro, por exemplo. Se você ia cortar o cabelo em abril, maio e junho, mas não fez isso e voltou apenas em julho, são três cortes que deixaram de existir e não vão ser ‘recuperados’. Se você não foi a um restaurante naquele mês, aquilo meio que já se perdeu”, exemplifica.

Outro ponto de discussão sobre o setor é quais mudanças trazidas pela pandemia são temporárias e quais vieram para ficar. Entre os alunos de Silva, por exemplo, ele acredita que uma parte deva aderir aos treinos em casa definitivamente. “O pessoal está voltando para a academia, mas alguns se adaptaram tanto a treinar em casa que a tendência é que o serviço de academia diminua”, acredita.

A economista Victal ressalva que “é perigoso achar que as
mudanças temporárias serão permanentes”, mas não tem dúvidas de que muitas
adaptações trazidas pela pandemia vão se tornar parte do cotidiano mesmo depois
que ela passar.

“O que aconteceu é que a vida online se tornou muito mais palatável para todo mundo do que era antes da pandemia. Tinha todo um receio de como seria fazer uma série de reuniões por videoconferência, se a empresa em home office ia funcionar, e todo mundo foi surpreendido. Tinha uma série de custos que agora as pessoas vão readaptar.”

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