Com pandemia, entregadores de app têm mais trabalho, menos renda e maior risco à saúde

Com pandemia, entregadores de app têm mais trabalho, menos renda e maior risco à saúde

Centenas de entregadores em marcha por São Paulo durante paralisaçãoDireito de imagem
Sebastião Moreira/EPA

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Entregadores fizeram marchas por São Paulo durante paralisação

Ao reivindicarem melhores condições de trabalho nos serviços de entrega por aplicativos nesta quarta-feira (1), os trabalhadores que atuam no setor de entregas representam as demandas de uma categoria que tem crescido em número e perdido qualidade de vida nos últimos anos.

Em manifestações realizadas hoje, entregadores prometiam “parar” o serviço de entregas em boa parte do país, setor comandado principalmente por três empresas: iFood, Rappi e Uber Eats.

Movimentos nas redes sociais pedem que, para contribuir com a paralisação, consumidores não façam pedidos via aplicativos de entrega de comida.

A BBC News Brasil reuniu levantamentos e análises das estatísticas mais recentes sobre o universo desses trabalhadores, especialmente baseados nos números divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e o retrato confirma algumas das demandas apresentadas na greve dos trabalhadores.

Os dados indicam remuneração menor, jornadas longas e a migração de profissionais qualificados de outras áreas durante a pandemia, em meio ao alto risco de contágio pela covid-19 que os trabalhadores enfrentam durante as entregas.

Ensino superior e más condições

Levantamento da plataforma de estudos e vagas no ensino superior Quero Bolsa com base nos microdados da Pnad-Covid aponta que, em maio, 42 mil brasileiros com ensino superior (graduação e pós-graduação) se declararam como “Entregador de mercadorias (de restaurante, de farmácia, de loja, aplicativo, etc.)”, o que representa 0,15% dos 27 milhões de brasileiros com ensino superior.

“Diversos profissionais foram afastados de seus respectivos empregos e tiveram que procurar outras fontes de renda para se sustentar. Uma delas foi a de entregador, seja diretamente com o estabelecimento ou através de aplicativos de delivery”, indica o levantamento.

De acordo com os dados da pesquisa, 3,7 mil (8,8% do total de entregadores com ensino superior) foram afastados do trabalho por conta da quarentena, isolamento,distanciamento social ou férias coletivas.

Outra pesquisa, desta vez realizada na Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp (Cesit – Unicamp) em parceria com outras instituições aponta que, durante a pandemia de covid-19 tais trabalhadores continuaram a enfrentar longas jornadas de trabalho, mas em condições que se tornaram piores: passaram a enfrentar um alto risco de contágio durante a rotina de trabalho, e a adotar medidas de precaução na maioria custeadas por eles mesmos, além de registrarem queda na remuneração pelos serviços. O estudo foi realizado em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Universidade de Juiz de Fora (UFJF), Ministério Público do Trabalho (MPT) e Universidade Federal do Paraná.

No período da pandemia a remuneração sofreu uma queda geral, indica o estudo. “Antes da pandemia a remuneração era baixa, uma vez que 47,4% dos respondentes afirmaram que auferiam até R$ 520,00 por semana. Ainda durante a pandemia, houve aumento de 100% dos que auferiam menos do que R$ 260 por semana; e, finalmente, quase 50% dos respondentes apontaram queda no bônus concedido pelas empresas detentoras de plataformas de entrega”, afirma a publicação.

“A percepção dos entregadores é que o aumento da jornada está relacionado à contratação de grande número de novos entregadores durante a pandemia, o que gerou uma oferta maior de entregadores disponíveis, provocando, como consequência, a redução das chamadas para entregas. Para manter a remuneração, os entregadores passaram a trabalhar mais horas. Associado a isso, houve redução de períodos com tarifas dinâmicas e redução de oferta de prêmios.”

Já nos cálculos da Análise Econômica Consultoria, o percentual de pessoas que trabalharam para aplicativos de entrega ou transporte de passageiros representa 15% de todos os informais (aproximadamente 4,7 milhões de pessoas) até maio de 2020. Em 2019, os números eram de 26,2 milhões e 3,6 milhões aproximadamente.

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Entregadores de aplicativos paralisaram o serviço nesta quarta-feira

“É fundamental salientar que os aplicativos representam uma parcela significativa de contratantes de mão de obra, mas o número total de informais ainda inclui muitas atividades não-digitais ou tradicionais, como ambulantes”, explica o diretor de estudos Franklin Lacerda, mestre em Economia Política pela PUC-SP.

Já quando se trata especificamente dos ciclistas e motoboys que fazem entregas, embora não haja dado preciso na Pnad, a estimativa da consultoria a partir de inferência estatística é de que os trabalhadores de aplicativos de entregas de refeições foram de aproximadamente 250 mil em 2019 e até junho de 2020 já são mais de 645 mil, portanto, uma taxa de crescimento de aproximadamente 158% só até o primeiro semestre de 2020.

Quem são os entregadores?

De acordo com o levantamento da Quero Bolsa, o perfil dos entregador de mercadoria com ensino superior é de um homem, branco, entre 40 e 45 anos, morador da região Sudeste.

67% se identificam como brancos e 31,8% como negros (pretos ou pardos); 87% são homens; 22,7% com mais de 40 e menos de 45 anos; 68,5% se localiza em estados do Sudeste.

Entre os entregadores com curso superior que estrearam na atividade durante a pandemia, o trabalho como entregador não é a única fonte de renda. Quase 8 mil, ou 19% do total, utilizaram auxílios emergenciais relacionados ao coronavírus para complemento de renda. 13,1%, cerca de 5,5 mil, responderam que trabalham em mais de um emprego.

Mais pedidos e menos renda

A pesquisa do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp (Cesit – Unicamp) consultou, por meio de um questionário online na plataforma Google, 298 trabalhadores nas grandes cidades, principalmente – São Paulo, Belo Horizonte, Recife e Curitiba —, no período de 13 a 27 de abril de 2020.

O objetivo era abordar as seguintes questões: se houve alteração no tempo de trabalho, se ocorreu variação na remuneração recebida; se as empresas forneceram os meios de proteção necessários (como álcool em gel, máscaras e orientações gerais) e como se deu a relação dos trabalhadores com os riscos de contaminação na pandemia.

A pesquisa destacou ainda que a pandemia aumentou a demanda por esse tipo de serviço, cenário que contrasta com a manutenção de longas jornadas acompanhadas de queda da remuneração dos trabalhadores do setor, que é justamente uma das queixas dos entregadores em greve.

“A Rappi, por exemplo, declarou um aumento de cerca de 30% das entregas em toda América Latina. No Brasil, isso foi expresso no aumento de downloads de aplicativos de entregas no período compreendido entre 20 de fevereiro e 16 de março de 2020, em 24%”, diz o estudo, de autoria de Ludmila Costhek Abílio e Paula Freitas Almeida, doutoras pela Unicamp e pesquisadoras do Cesit e mais cinco pesquisadores.

Também nesta pesquisa os homens se revelaram a maioria dos trabalhadores, 94,6%. O perfil preponderante dos entregadores entrevistados é de homens que se reconhecem como brancos ou pardos (83,9%), com idades entre 25 e 44 anos (78,2%).

70,5% dos respondentes disseram que trabalhavam para duas ou mais plataformas e, entre estes, 5,7% afirmaram estar inscritos nas quatro plataformas sugeridas (iFood, Rappi, Uber Eats e Loggi), e outras.

A pesquisa apontou que mais de 57% dos respondentes afirmaram já trabalhar normalmente mais de nove horas diárias, percentual que subiu para 62% durante a pandemia. Durante a pandemia, 51,9% dos entrevistados afirmaram trabalhar os sete dias da semana, enquanto 26,3% deles, seis dias.

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Pesquisa apontou que a maioria dos entregadores relatou queda na remuneração durante a pandemia

A maioria dos entrevistados (58,9%) relatou queda na remuneração durante a pandemia, quando comparado com o momento anterior.

No universo de 270 respondentes, 47,4% declararam rendimento semanal de até R$ 520,00 (o que corresponderia a aproximadamente R$ 2.080,00 mensais). Destes, 17,8% declararam remuneração de até R$ 260,00 por semana (aproximadamente, R$ 1.040,00 mensais).

Durante a pandemia, a parcela de entregadores que tem remuneração inferior a R$ 260,00 semanais praticamente dobrou, passando a compor 34,4% dos entrevistados

“É possível, aventar a possibilidade de que as empresas estejam promovendo o rebaixamento do valor da força de trabalho daqueles que já se encontravam nesta atividade antes da pandemia, prática que seria amparada pelo aumento do contingente de trabalhadores de reserva e adoção de forma nociva de uma política de aumento do número de entregadores”, afirma a pesquisa.

Tensão e ansiedade contra a covid-19

57,7% dos entrevistados afirmaram não ter recebido nenhum apoio das empresas para diminuir os riscos de contaminação existente durante a realização do seu trabalho.

A utilização de álcool-gel durante o trabalho foi a forma preventiva mais apontada pelos entregadores para evitar a contaminação, como indicado no gráfico 6, sendo adotada por 88,9% dos entrevistados; 74,8% indicou fazer uso de máscaras e 54,4% fazer entrega sem contato direto com os clientes.

“Durante a pesquisa, 83,2% dos entrevistados relataram que têm medo de serem contaminados durante a prestação dos serviços em tais condições, o que, entre outras coisas, evidencia o forte grau de tensão e de ansiedade que gira em torno do trabalho”, diz a pesquisa.

O que dizem as empresas

De maneira geral, as empresas negam falta de transparência e queda de remuneração. Afirmam que, por causa da pandemia, mais pessoas começaram a trabalhar no setor, o que aumentou a concorrência para conseguir corridas.

A Uber Eats, por exemplo, afirmou: “Todos os ganhos estão disponibilizados de forma transparente para entregadores parceiros, no próprio aplicativo. Não houve nenhuma diminuição nos valores pagos por entrega, que seguem sendo determinados por uma série de fatores, como a hora do pedido e distância a ser percorrida.”

Já a iFood disse que “não houve qualquer alteração nos valores das entregas” e que estabeleceu R$ 5 como valor mínimo para qualquer corrida. Diz, ainda: “Em maio, 51% dos entregadores receberam R$ 19 ou mais por hora trabalhada. Esse valor é quatro vezes maior do que o pago por hora tendo como base o salário mínimo vigente no país.”

A Rappi afirmou que “o frete varia de acordo com o clima, dia da semana, horário, zona da entrega, distância percorrida e complexidade do pedido. Dados da empresa mostram que cerca de 75% deles ganha mais de R$ 18 por hora e que quase metade dos entregadores parceiros passam menos de 1 hora por dia conectados no app”.

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