“Pensar em flexibilização, só depois que controlar contágio”, diz epidemiologista brasileiro na OMS

“Pensar em flexibilização, só depois que controlar contágio”, diz epidemiologista brasileiro na OMS

ônibus com passageiros de máscaraDireito de imagem
Agência São Luís

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Passageiros de máscara; para epidemiologista da Opas, “pensar em flexibilização só depois que controlar contágio”

Países e Estados que ainda estão vendo crescer o número de casos de coronavírus não devem pensar em retomar atividades econômicas que não sejam essenciais. Apenas aqueles que observam redução do número de infectados e cujos sistemas de saúde estejam preparados para receber novos pacientes devem cogitar fazê-lo – e mesmo assim, de forma cautelosa.

Essa é a recomendação enfática do médico sanitarista e epidemiologista brasileiro Jarbas Barbosa da Silva, diretor-assistente da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço regional nas Américas da Organização Mundial da Saúde (OMS). Antes da Opas, Barbosa presidiu a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) entre 2015 e 2018.

Em conversa com a BBC News Brasil, Barbosa não opinou diretamente sobre o fato de o presidente Jair Bolsonaro ter incluído na lista de serviços essenciais, que podem funcionar durante a pandemia, academias de ginástica, salões de beleza e barbearias, decisão tornada pública na última segunda-feira, à revelia do Ministério da Saúde. “É uma decisão tomada por cada país. Não temos uma lista de serviços recomendados ou não”, disse ele.

A inclusão não significa que a medida será posta em prática, já que a decisão de fazê-lo cabe a Estados e municípios, e não ao governo federal.

No entanto, Barbosa avaliou que há “pressupostos básicos” para que um país ou Estado venha a cogitar uma reabertura da economia. “Em primeiro lugar, só se pode pensar em um plano de transição de reabertura da economia quando a transmissão está controlada. Isso significa que o número de casos diminuiu, que busca-se testar todos os sintomáticos e mesmo assim não se vê crescimento de casos, que leitos de UTI e respiradores mecânicos estão com disponibilidade de atender quem necessitar deles”, disse ele.

Já aqueles Estados que não estão sendo capazes de reduzir a velocidade de transmissão “têm que avaliar a adoção de novas medidas no sentido de produzir o resultado que buscamos (redução de transmissão) e não correr o risco de ter os serviços sem a capacidade de atender as pessoas”, afirma Barbosa.

Estados que têm poucos casos atualmente não podem relaxar. “Pode ser apenas questão de tempo”, alerta ele. “Vimos lugares que pareciam estar conseguindo controlar o crescimento e semanas depois, isso não era mais verdade”.

Barbosa colaborou com um estudo publicado em setembro de 2019, meses antes do surto do novo coronavírus, liderado pela doutora Jennifer Nuzzo, da universidade americana Johns Hopkins, sobre o grau de preparo do mundo para a chegada de um vírus respiratório letal.

Ele diz que o coronavírus surpreendeu a todos. “A combinação de dois fatores (alta transmissibilidade e capacidade de gerar muitos casos graves) era algo que não tínhamos visto nos últimos 100 anos”, diz ele.

Não que tenha sido uma surpresa completa – alguns especialistas previam que poderia haver uma pandemia de grandes proporções. Pesquisadores reunidos pela própria OMS alertaram em 2018 para a possibilidade de “uma séria epidemia internacional que pode ser causada por um patógeno atualmente desconhecido, capaz de causar doenças em humanos”.

Por que não nos preparamos para isso? “Não sei se, depois de várias emergências de saúde pública com um dano limitado se comparado à covid-19, o mundo não achou que a gente estava preparado. Por isso digo que essas duas características são uma combinação que não tínhamos visto antes. Depois que a pandemia passar precisamos pensar em como podemos nos preparar melhor. Não temos certeza se vai acontecer; provavelmente, sim”, diz ele.

Olhando para o futuro, Barbosa vê com otimismo a possibilidade de desenvolvimento de uma vacina. É categórico ao afirmar que, por ora, essa é a melhor saída, já que nenhum tratamento até o momento mostrou evidências de sucesso suficientes para ser recomendado pela OMS.

Veja abaixo a entrevista.

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Alemanha anunciou a flexibilização das medidas de isolamento; Diferentemente do Brasil, que ainda não atingiu o pico de contágio, a Alemanha já conseguiu “achatar a curva” da transmissão e diminuir a disseminação da doença

BBC News Brasil – O Brasil já tem mais de 13 mil mortes por coronavírus. O senhor acredita que o país será o novo epicentro mundial do coronavírus?

Jarbas Barbosa – A Opas falou disso em coletiva de imprensa há três semanas. Quando olhamos os dados chamamos a atenção para o fato de que a América Latina iria, nas semanas seguintes, passar por esse cenário de crescimento (do número de casos). Quando olhamos a linha do tempo, vemos que teve primeiro na Ásia, Europa, EUA e só depois começou a transmissão na América Latina. É como se estivéssemos na situação da Europa há um mês atrás.

No Brasil, Peru, Equador, Colômbia, Chile, Argentina, com características diferentes, observamos um crescimento da transmissão extremamente preocupante. Já está bem demonstrado que se as medidas de distanciamento social não conseguem evitar a transmissão, o número de casos graves supera a capacidade dos serviços de saúde, mesmo em países desenvolvidos. O distanciamento social neste momento é fundamental porque é a única ferramenta que temos para reduzir a velocidade e fazer com quem os serviços de saúde consigam atender as pessoas que podem precisar.

BBC News Brasil – Como vê a decisão do presidente Jair Bolsonaro de incluir salões de beleza e academias de ginástica na lista de serviços essenciais, que podem funcionar durante a pandemia?

Barbosa – É uma decisão tomada por cada país. Não temos uma lista de serviços recomendados ou não. Mas há alguns pressupostos básicos. Em primeiro lugar, só se pode pensar em um plano de transição de reabertura da economia quando a transmissão está controlada. Isso significa que o número de casos diminuiu, que busca-se testar todos os sintomáticos e mesmo assim não vê crescimento de casos, que leitos de UTI e respiradores mecânicos estão com disponibilidade de atender quem necessitar deles.

Deve ser feito um planejamento muito cuidadoso, começando pelo que é mais essencial. Isso varia de país para país. Cada um tem que fazer sua avaliação com base na situação que tem. Entre cada etapa deve ter um prazo de 14 dias para ver se aquele processo não gerou um recrudescimento da transmissão comunitária. Mas isso tudo tem um pressuposto: transmissão controlada. Se você começa a implementar, volta à atividade econômica num momento de crescimento dos casos, esse aumento será ainda maior.

BBC News Brasil – Esses serviços podem ser considerados essenciais?

Barbosa – Não fazemos esse tipo de avaliação. Isso é decisão de cada país. Durante a crise não estamos avaliando medidas em nenhum país. Nós fazemos recomendações e os países implementam de acordo com sua realidade. Depois que passar a pandemia vamos avaliar o que funcionou ou não. Mas no momento quem tem essa condição são as autoridades de saúde do Brasil – Ministério da Saúde, secretarias dos Estados, precisam fazer essa avaliação de o que é essencial ou não.

BBC News Brasil – Como o senhor avalia a forma como o presidente vem lidando com a crise de coronavírus no país desde o início?

Barbosa – Não fazemos avaliação de países. O Ministério da Saúde vem implementando medidas. Apoiamos a pasta com recomendações técnicas. No momento da batalha nosso papel é de prestar cooperação técnica.

BBC News Brasil – A situação de risco que o senhor descreve, de cogitação de flexibilização de medidas de distanciamento apesar de estarmos em meio ao aumento de casos, é a que o presidente defende. A OMS considera fazer um alerta?

Barbosa – O alerta nós fazemos há semanas. Países da América Latina que têm aumento de casos têm que avaliar o que está ocorrendo e se as medidas adotadas não estão sendo capazes de reduzir a velocidade de transmissão, têm que avaliar a adoção de novas medidas no sentido de produzir o resultado que buscamos (redução de transmissão) e com isso não correr o risco de ter os serviços sem capacidade de atender as pessoas.

BBC News Brasil – Medidas como lockdown (confinamento obrigatório)?

Barbosa – Tem que avaliar caso a caso. Esses conceitos não têm uma definição precisa. Se as medidas que tomei até agora não estão funcionando, por que isso acontece? As medidas estão adequadas, mas a adesão da população está baixa? O que preciso fazer para aumentar adesão? As medidas são adequadas, a população aderiu, e mesmo assim a transmissão segue. O que fazer então? Tomar novas medidas adicionais.

Isso tem que ser feito caso a caso por autoridades sanitárias de cada país. Em lugares grandes como Brasil e México, onde há muita diversidade de realidade em cada Estado ou província, você tem que fazer essa avaliação com muito critério porque a efetividade das medidas de distanciamento social é chave para que a gente consiga atravessar esse período para evitar que os sistemas de saúde não consigam lidar. É como uma mola de pressão. Pensar em flexibilização, só depois que controlar. Antes disso, não faz sentido do ponto de vista técnico e científico. Isso vai muito provavelmente gerar um recrudescimento da transmissão.

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No futuro, diz Barbosa, é preciso ter previstos em lei mecanismos de aumento rápido da capacidade de reação do sistema de saúde

BBC News Brasil – Quais são os países da América Latina que preocupam mais?

Barbosa – Todos, porque é só uma questão de tempo. A taxa de incidência do Peru e do Equador é maior que a do Brasil, mas temos alguns Estados – Rio, São Paulo, Amazonas, Pernambuco, Ceará, Pará – que têm transmissão muito forte, e outros que ainda não têm, mas mesmo os que não têm precisam ficar em alerta porque pode ser só uma questão de tempo.

É como se a transmissão deles estivesse com atraso de duas ou três semanas. No caso da covid-19 não tem base para isso (imaginar que Estado não será afetado). Seguramente os que estão com números de casos grandes e ainda estão num processo de aceleração (do número de casos) têm que adotar medidas observando essa realidade no sentido de colocar freios na velocidade de transmissão. Isso é o mais importante agora. Distanciamento social e fortalecimento do sistema de saúde.

O principal objetivo é salvar vidas. As medidas de distanciamento produzem redução de transmissão e dão segurança de que a capacidade do sistema pode atender à demanda produzida. Os dois lados da equação têm que ser monitorados com muito cuidado, diariamente, durante esses períodos.

BBC News Brasil – Em alguns Estados já se chegou no limite.

Barbosa – Alguns atingem níveis críticos. Vejo eles tomando medidas como contratar leitos, reabrir leitos desativados. Cada país deve observar dentro de sua legislação o que pode ser feito para aumentar essa capacidade.

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“A covid-19 tem que ser uma revolução na maneira como a gente se prepara para possíveis pandemias futuras”, diz Barbosa

BBC News Brasil – O senhor colaborou com um estudo da universidade Johns Hopkins liderado pela doutora Jennifer Nuzzo sobre o grau de preparo do mundo para a chegada de um vírus respiratório letal. Ele foi publicado em setembro de 2019, meses antes do surto do novo coronavírus. Surgiram problemas que não haviam previsto?

Barbosa – A América Latina melhorou a capacidade de reagir nos últimos anos. Mas o que estamos vendo com a covid-19 surpreendeu todo o mundo. No começo, na primeira coletiva de imprensa, me perguntaram se não estávamos exagerando. Porque havia mesmo muita incerteza. A covid-19 tem uma combinação de duas coisas que não tínhamos visto antes, pelo menos nos últimos 100 anos. Primeiro, um vírus que se dissemina com muita velocidade, como um vírus de influenza, talvez mais rápido – mas influenza produz menos casos graves. E por outro lado tem uma capacidade grande de gerar casos graves alta, como já tínhamos visto com primos deles (outros coronavírus). Com Sars e Mers, a gravidade era maior, mas a capacidade de disseminação, menor. O vírus combina essas duas características. Só 5% dos casos vão precisar de leito de UTI. Isso significa uma coisa quando temos 10 mil ou 50 mil doentes.

BBC News Brasil – Hoje sabemos que havia uma série de alertas como esse. No entanto, essa informação não era de conhecimento do grande público. Por quê? Houve erro da imprensa, erro da comunidade científica…

Babosa – A covid-19 vai mudar a valorização do grau de preparação e resposta. Nas emergências anteriores, na H1N1, houve acusações de que a OMS havia exagerado. Mas os números mostram que era grave, sim. Era um vírus muito mais agressivo do que o da influenza. Depois tivemos Sars, que foi contida, e Mers, que também foi. Depois teve zika, mas que também ficou em alguns países. Não sei se, depois de várias emergências de saúde pública com um dano limitado se comparado à covid-19, o mundo não achou que a gente estava preparado.

Por isso digo que essas duas características são uma combinação que não tínhamos visto antes. Depois que a pandemia passar precisamos pensar como podemos nos preparar melhor. Não temos certeza se vai acontecer, provavelmente, sim.

BBC News Brasil – Por que não estávamos preparados?

Barbosa – A percepção de risco nem sempre é baseada em evidência. Há muitas mortes evitáveis, por que não há um esforço para reduzir? Quando olhamos para a emergência da Sars, ela foi fundamental para acelerar o processo de revisão do regulamento sanitário internacional. Até então os países não eram obrigados a notificar todas as doenças, só algumas – varíola, febre amarela, cólera. E a OMS só podia agir com notificação oficial do país. Hoje em dia qualquer coisa nova tem que ser notificada e a OMS monitora mais. Mandamos uma carta no mesmo dia pedindo verificação. A Sars foi gatilho para melhorar a resposta. A covid-19 tem que ser uma revolução na maneira como a gente se prepara, com fortalecimento da OMS, da sua capacidade de resposta, criação de mecanismos de acesso a insumos críticos para responder a uma pandemia para evitar que países ricos tenham muito e pobres, passem dificuldade. Isso tem que se transformar em missões a nível de cada país também.

BBC News Brasil – Nas Américas, vimos uma grande diversidade de respostas. Quais países o senhor diria que reagiram com mais sucesso e por quê? O Brasil pode tirar lições deles? O que funciona bem?

Barbosa – Não fazemos esse tipo de avaliação. Me recuso a dizer já que haja um país que fez tudo correto. Muitas vezes medidas funcionam bem, mas depois param de funcionar. O que sabemos que funciona bem em qualquer lugar? Capacidade de testagem de todos os casos sintomáticos, mesmo os leves, assim você vai cortando a transmissão ao alertar contatos dessa pessoa.

Também é importante haver um bom sistema de vigilância (no sistema de saúde) – se começamos a ver o número de casos de pneumonia subindo num momento atípico, isso acende um alerta. Além disso, a proteção dos profissionais de saúde para que possam continuar prestando serviços e ter mecanismos de aumento rápido da capacidade de reação quando for necessário. O que é mais factível: hospital de campanha, reabrir leitos fechados, negociar com a rede privada? Cada um encontra sua realidade. Mas esses mecanismos já devem estar previstos, porque quando forem necessários, a implementação será mais rápida.

BBC News Brasil – Como o senhor vê o futuro nos próximos meses?

Barbosa – Controlada a primeira onda, se algum país suspende todas as medidas de distanciamento social, teremos inevitavelmente outra onda. Então é preciso uma aberta gradual, setor por setor, de acordo com sua importância para a economia do país, e mesmo quando isso acontecer é preciso ter medidas cuidadosas de limpeza, as regras de distanciamento devem ser mantidas, lojas devem ter limite do número de pessoas que entram ao mesmo tempo. E se se verifica que começa a haver novo surto, é preciso segurar, dar passo atrás, até termos vacina.

BBC News Brasil – E a probabilidade de uma vacina?

Barbosa – Ela é a única solução. Até aqui nenhum medicamento demonstrou capacidade de reduzir os casos graves. Quanto à vacina, há mais de 100 projetos, com 11 mais adiantados. Sendo otimista, diria que seja possível até 2021. E depois tem o desafio de tornar a distribuição equitativa. Para que todos no mundo que precisam tenham acesso. Para que não aconteça o que aconteceu com a vacina da H1N1, quando países pobres tiveram acesso de seis a oito meses depois dos países ricos.

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