Por que a Bolsa teve forte alta após a queda histórica de segunda-feira

Por que a Bolsa teve forte alta após a queda histórica de segunda-feira

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Nesta terça, os preços do petróleo fecharam em forte alta, recuperando parte das perdas da véspera, quando o preço barril da commodity tombou quase 25%

Um dia depois do pânico generalizado nos mercados financeiros de todo o mundo, um ajuste por parte dos investidores nesta terça-feira (10/03), mesmo sem grandes alterações no cenário global, colocou para cima o preço de moedas emergentes, dos mercados de ações e das matérias-primas em todo o mundo.

O preço do petróleo, que ontem caiu de US$ 45 a US$ 31,52 apenas segundos depois do início das operações internacionais e levou a Petrobras a perder dezenas de bilhões em valor de mercado, registrou um dia de alta e recuperou parte das perdas.

Como a mudança de humor do mercado não se justificou por nenhuma alteração radical de cenário de um dia para o outro, a valorização dos ativos foi interpretada por analistas como um ajuste depois do forte pessimismo.

O Ibovespa, principal índice da bolsa de São Paulo, a B3, fechou em forte alta nesta terça-feira, recuperando parte das perdas de segunda, em meio a expectativas de ações coordenadas de governos e bancos centrais de todo o mundo para ajudar as economias em meio ao surto do novo coronavírus. O Ibovespa avançou 7,14%, indo a 92.214 pontos. Na máxima, o índice bateu os 92.230 pontos.

Já o dólar encerrou o dia vendido a R$ 4,6447, em queda de 1,77%.

Ontem, o surto global do novo coronavírus levou o mercado financeiro mundial a mergulhar em seu pior momento desde a crise econômica de 2008. O Ibovespa fechou o dia em queda de 12,17%, caindo a 86.067 pontos, a maior baixa percentual diária desde 10 de setembro de 1998.

Na segunda-feira, o dólar comercial terminou o dia no Brasil a R$ 4,73, em alta de 2,03%. Além disso, o preço do petróleo registrou ao longo do dia a maior queda em quase 30 anos. O valor do barril do tipo Brent caiu quase 30% na abertura dos mercados na Ásia.

‘Exageros’

O banco Fator, em relatório assinado pelo economista-chefe José Francisco de Lima Gonçalves, pondera que o “noticiário não trouxe alterações relevantes no cenário internacional que justifique tal alta, de modo que o movimento pode ser visto como um ajuste a exageros de ontem”.

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Principal índice da bolsa de valores brasileira avançou 7,14%, a 92.214 pontos. Na máxima, o índice bateu 92.230 pontos durante o dia

Apesar da relativa estabilidade do cenário desde ontem, alguns fatores positivos entraram no radar dos investidores nesta terça, como a desaceleração dos novos casos de covid-19 — a doença causada pelo novo coronavírus — na Coreia do Sul, que caíram de 813 no fim de fevereiro para 248 nos dados divulgados esta semana.

Outra notícia interpretada com viés positivo pelo mercado foi a perspectiva de que o presidente americano, Donald Trump, anuncie as prometidas medidas econômicas para tentar conter os danos causados pela propagação da epidemia.

O pacote, conforme anteciparam algumas fontes à imprensa americana, deve incluir o corte de impostos na folha de pagamentos e um aumento temporário do pagamento de auxílios-doença, além de incentivos para a indústria do turismo, que tem sido muito afetada por cancelamentos e reduções de viagens.

A sinalização de Trump pode aliviar uma das maiores preocupações do mercado financeiro em relação ao coronavírus: o risco de que, por se tratar de um vírus com alta velocidade de transmissão, atinja economias relevantes para o cenário global além da China e Itália, em especial os Estados Unidos, onde já foram registradas 259 casos confirmados e 19 mortes até esta terça-feira.

No Brasil, o Ministério da Saúde anunciou que, até esta terça-feira, 34 casos do novo coronavírus foram confirmados. Estes casos estão em oito Estados: São Paulo (19), Rio de Janeiro (8), Bahia (2), Espírito Santo (1), Minas Gerais (1), Alagoas (1), Distrito Federal (1) e Rio Grande do Sul (1). Outros 893 casos estão sob suspeita, e 780 foram descartados.

Nesta terça, ao discursar em Miami, o presidente Jair Bolsonaro negou que exista crise econômica internacional e insinuou que há alarmismo na cobertura de imprensa sobre a desaceleração de mercados diante da epidemia de coronavírus.

“Os números, não só da economia, bem como das demais áreas falam por si. Durante o ano que se passou, obviamente, temos momentos de crise. Muito do que tem ali é muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propaga”, afirmou Bolsonaro.

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Apesar de notícias sinalizarem desaceleração na China, avanço do coronavírus ainda está no radar dos investidores do mercado financeiro

Economia frágil mesmo antes do corona

No cenário nacional, os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) retrataram que a produção industrial brasileira caiu 1,1% em relação ao acumulado de agosto até outubro. Embora a produção tenha registrado avanço de 0,9% em janeiro, a atividade industrial recuou 1% no acumulado em 12 meses.

“O dado abre o ano mostrando a fragilidade da indústria nacional, em cenário que ainda não leva em conta os esperados impactos do coronavírus sobre as cadeias produtivas. Este choque, deve começar a aparecer somente nos dados de março, mas ainda é cedo para estimar a magnitude deste efeito no Brasil”, afirma a consultoria LCA.

Vanei Nagem, chefe de câmbio do Terra Investimentos, diz que outro fator que pesou a favor da relativa calmaria no mercado de câmbio foi a atuação do Banco Central, que realizou nesta terça novo leilão de dólares à vista com oferta de R$ 2 bilhões.

“O BC acertou na atuação dele, supriu a necessidade dos compradores”, diz Nagem. No Brasil, o câmbio é flutuante, o que significa que a autoridade monetária age para conter altas no curtíssimo prazo, mas não para perseguir cotações para a moeda; a meta que orienta as ações do BC é a de inflação.

Nagem destaca, no entanto, que o cenário ainda é incerto a respeito do coronavírus. A China é o país asiático é o mais afetado até agora pela doença causada pelo vírus. Até agora, foram registrados 80.859 casos entre os chineses — 3.122 pessoas morreram.

Com cidades sob quarentena e empresas fechadas, a segunda maior economia do mundo já começa a sofrer os impactos da crise sanitária. E, dada a sua importância para o comércio mundial, começa a afetar seus parceiros.

Mas mesmo em novo dia de preocupação com a China, o tom de hoje foi mais positivo: nesta terça, o presidente Xi Jinping visitou a cidade de Wuhan, o centro do surto de coronavírus, no momento em que a China registrou o menor número de infecções, apenas 19 no dia.

A China já teve 80.754 casos confirmados, dos quais 3.136 morreram. Na contramão de Europa e EUA, as primeiras escolas na China reabriram nesta segunda-feira, segundo o jornal americano The New York Times.

“Os sinais de normalidade na China também influenciam”, diz o analista.

Petróleo em leve recuperação

Na véspera, a forte queda no preço do petróleo foi atribuída à decisão da Arábia Saudita de aumentar substancialmente sua produção e começar a oferecer em certos mercados descontos de até 20% nos preços do petróleo bruto.

Nesta terça, os preços dos ativos pelo mundo se comportaram como um “espelho” de ontem. “Isto é, bolsas e juros de países desenvolvidos para cima; moedas e bolsa emergentes em recuperação, commodities valorizando e juros e prêmios de risco de países emergentes em queda”, afirmou a consultoria LCA, em relatório.

Ontem, abalada pelos preços do petróleo, a Petrobras perdeu R$ 91 bilhões em valor de mercado, segundo dados da empresa de informações financeiras Economatica. Nesta terça, os papéis da estatal foram destaques de alta, com valorização de 9,41% nas ações preferenciais, e 8,51% nas ordinárias.

Nesta terça, os preços do petróleo fecharam em forte alta, recuperando parte das perdas da véspera, quando o preço do barril da commodity tombou quase 25%. Os contratos futuros do petroleo do tipo Brent para maio encerraram o dia em alta de 10,42%, aos US$ 37,94, na bolsa ICE, em Londres. Já os contratos do tipo WTI fecharam o dia com valorização de 12,05%, aos US$ 34,88.

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