Qual é o tamanho da dívida do Brasil e vizinhos com a China, e o que isso significa

Qual é o tamanho da dívida do Brasil e vizinhos com a China, e o que isso significa


Bolsonaro em reunião com Xi Jinping em Brasília, em 14 de novembroDireito de imagem
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Bolsonaro em reunião com Xi Jinping em Brasília, em 14 de novembro; China é “cada vez mais parte do futuro do Brasil”, disse ele

Nas últimas décadas, a China exportou quantidades recordes de capital ao restante do mundo.

Seus empréstimos diretos e créditos comerciais passaram de quase zero em 1998 para mais de US$ 1,6 trilhão em 2018, cifra que equivale a 2% do PIB mundial.

Mas, ao contrário do que acontece na maioria dos países, esses fluxos de capital não são privados, de bancos ou investidores particulares. São nacionais, ou seja, de empresas ou instituições financeiras controladas pelo Estado.

A diferença é importante porque, diferentemente de investidores privados, o Estado chinês não busca apenas rentabilidade quando empresta o dinheiro, mas também influência política.

Seus principais braços de investimento são o China Development Bank e o Export-Import Bank of China, através dos quais o gigante asiático se converteu em um importante banqueiro na América Latina.

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ICBC é o maior banco chinês e tem ampla presença na América Latina

Somados, os cinco países latino-americanos que mais contraíram dívidas com entidades públicas da China devem ao país asiático mais de US$ 133 bilhões.

Para colocar a cifra em perspectiva: isso é mais do que o PIB (Produto Interno Bruto) do Equador.

Pouco mais da metade desse total (US$ 67,2 bilhões) foi emprestado à Venezuela, que é hoje o país mais endividado com a China no continente.

Muito desse dinheiro foi parar em empresas mistas, formadas por companhias chinesas com a estatal petrolífera venezuelana PDVSA, como forma de canalizar a participação estrangeira na exploração de petróleo da Venezuela.

“(A China) empresta dinheiro porque o tem. Em julho de 2016, o país contava com as maiores reservas de divisas do mundo: US$ 3,21 trilhões”, afirmou em artigo o jornalista Daniel Méndez, que investigou a fundo o tema e publicou suas conclusões no livro em espanhol 136: El Plan de China en América Latina.

“Em sua maioria, esse dinheiro vem de suculentos superávits comerciais (lucro da diferença entre o quanto o país exportou e o quanto importou) que o gigante asiático acumulou nos últimos anos, especialmente com os EUA”, acrescenta.

Mas o que a China espera obter com seus investimentos na América Latina, Brasil incluído?

Especialistas concordam que os empréstimos oficiais sempre têm por trás um elemento estratégico.

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Segundo especialistas, objetivos geopolíticos de Pequim passam por garantir o abastecimento de recursos e matérias-primas, além de abrir novos mercados para suas próprias mercadorias

Pequim, por sua vez, defende que esses acordos beneficiam todas as partes, enquanto governos da região têm buscado aproximação com a segunda maior economia do mundo — em reunião recente com o presidente chinês Xi Jinping, o brasileiro Jair Bolsonaro afirmou que a China, que já é o maior parceiro comercial do Brasil, é “cada vez mais parte do futuro do Brasil”.

Objetivos distintos

Na América Latina, especialistas explicam que os objetivos geopolíticos de Pequim passam por garantir o abastecimento de recursos e matérias-primas, além de abrir novos mercados para suas próprias mercadorias.

Um exemplo disso são os investimentos no setor de infraestrutura voltada a melhorar o comércio no oceano Pacífico, o que baratearia o transporte para empresas chinesas.

Mas há também numerosos contratos firmados para a exportação conjunta de petróleo e minérios em todo o continente.

“Certamente esse fluxo de dinheiro (para a América Latina) é parte da estratégia de internacionalização da China e de expandir sua pegada no comércio global, nas finanças ou mesmo militarmente”, explica à BBC News Mundo Christoph Trebesch, analista do centro de estudos Kiel Institute for the World Economy, sediado na Alemanha.

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Xi Jinping com Macri, que deixa a Presidência da Argentina; dívida argentina com a China é de US$ 16,9 bi

Matérias-primas

A Venezuela personifica uma das formas de empréstimos mais típicas das feitas com a China: os ligados a recursos naturais.

No caso de Caracas, por exemplo, a China permite devolver uma parte do crédito diretamente por meio da venda de petróleo, pelos preços determinados pelo mercado.

“São os chamados loans-for-oil ou empréstimos por petróleo. Para a China, eles servem para assegurar o abastecimento de recursos naturais e garantir de alguma forma o pagamento no caso de uma crise econômica (do país devedor)”, diz Méndez à BBC News Mundo.

Essa mesma fórmula tem sido usada em muitos outros acordos internacionais.

Segundo registros do centro de estudos Diálogo Interamericano, con sede em Washington, o China Development Bank destinou, em setembro de 2018, cerca de US$ 5 bilhões para investimentos no setor petrolífero venezuelano.

Atrás da Venezuela, o Brasil é o segundo maior devedor à China, com empréstimos de US$ 28,9 bilhões, seguido pelo Equador (US$ 18,4 bi), a Argentina (US$ 16,9 bi) e a Bolívia (US$ 2,5 bi).

No caso dos três últimos países, os créditos costumam estar ligados a exportações chinesas ou à construção de obras de infraestrutura por empresas chinesas.

“A China te empresta o dinheiro, em troca de que você compre materiais de empresas chinesas (maquinário, satélites, trens, equipes de telecom) ou que determinadas obras de infraestrutura sejam feitas por empresas chinesas (estradas, túneis, linhas de trem, centrais nucleares)”, aponta Méndez.

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Na Bolívia, há acordos comerciais para exploxar o lítio, usado na baterias de carros e celulares

Embora a Venezuela seja a maior devedora, o Diálogo Interamericano diz que um outro país latino-americano tem se destacado atualmente em sua relação com a China.

“Levando em conta exclusivamente o número de projetos individuais que estão sendo desenvolvidos na região, a Bolívia se destaca como o destino principal para os investidores chineses”, diz o centro de estudos. “Desde 2013, as empresas chinesas entraram em mais de 20 projetos de estradas e pontes na Bolívia.” Há, por exemplo, acordos comerciais para explorar o lítio, usado na baterias de carros e celulares.

Implicações

Os grandes fluxos de capital chineses à América Latina têm implicações importantes para a sustentabilidade da dívida nos países receptores, explicam os analistas do Kiel Institute.

Em um informe, eles apontam que “os fluxos de empréstimos chineses entre 2008 e 2015 têm similaridades ao ciclo de empréstimos da década de 1970, que não terminou bem, uma vez que os preços das matérias-primas, a renda por exportações e o crescimento econômico despencaram em muitos dos países que haviam se endividado”.

Mas as preocupações não se limitam à sustentabilidade das contas dos países — abarcam também temas sociais, ambientais e de governo.

“Os investimentos chineses na região não estão isentos de riscos”, explica a consultoria Marsh, citando a construção de uma hidrelétrica em Santa Cruz, na Argentina, que começou sua avaliação de impacto ambiental e acabou retida pela Suprema Corte do país.

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Créditos costumam estar ligados a exportações chinesas ou à construção de obras de infraestrutura por empresas chinesas

Balanço

Em contrapartida, há vozes que defendem que o crédito chinês ajudou a tirar do papel muitos projetos e que o saldo geral é positivo.

“É fato que algumas (empresas chinesas) cometeram erros, (…) mas estão aprendendo e suas operações estão melhorando. Não é justo ignorar o lado positivo de tudo isso”, afirmou Shoujun Cui, diretor do centro de estudos latino-americanos da Universidade Renmin, na China, em reportagem do South China Morning Post.

Uma das vantagens da China como investidor, disseram Cui e outros especialistas ao jornal, é que Pequim “não interfere na política interna nem tenta controlar a economia local”.

“A China, ao não impor receitas políticas em seus acordos comerciais e financeiros, oferece a seus sócios latino-americanos um espaço político para avançar em suas próprias receitas econômicas e políticas”, concorda Alexander Main, diretor do Centro de Investigações Econômicas e Políticas de Washington. Segundo essa avaliação, a colaboração chinesa seria menos “agressiva” que a dos EUA.

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