Um dia após fala sobre AI-5, Guedes diz que é preciso praticar ‘democracia responsável’

Um dia após fala sobre AI-5, Guedes diz que é preciso praticar ‘democracia responsável’

Paulo Guedes durante entrevista à imprensa em Washington, em 25 de novembroDireito de imagem
AFP

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Paulo Guedes provocou reações ao falar de AI-5 à imprensa nos EUA

Um dia depois de mencionar a possibilidade de “alguém pedir o AI-5” em resposta aos discursos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ministro da Economia, Paulo Guedes, voltou a comentar a preocupação com protestos populares nas ruas e defendeu “uma democracia responsável”.

“Eu acho que devemos praticar democracia responsável. Espere a próxima eleição, não precisa quebrar a cidade. Eu acho que isso assusta os investidores, acho que não ajuda nem a oposição, é estúpido”, afirmou o ministro, ao responder à pergunta de um dos espectadores sobre “as preocupações dos investidores em relação ao Brasil”, em um evento no think tank Peterson Institute for International Economics, na capital americana, Washington DC.

“As democracias são barulhentas. Eu estou preocupado com quem não está na rua, como na Venezuela. Pessoas vão para as ruas em paz, pessoas vão para a rua pedir, isso é democracia, democracia é barulho, as pessoas têm direito de fazer barulho, pedir coisas, não há problema em manifestações públicas.”

Guedes diz que isso leva os políticos a fazerem cálculos e pensar “será que devo continuar com isso?”, em referência à reforma administrativa, com caráter impopular.

Ele assegurou, no entanto, que o presidente Jair Bolsonaro está comprometido com todas as reformas e que o Congresso é reformista, logo, a aprovação de suas medidas seria apenas uma questão de “timing”.

O ministro buscou tranquilizar a plateia — que reagia às suas falas com muxoxos — sobre a vitalidade da democracia brasileira.

“Estamos transformando o Estado brasileiro. É um trabalho difícil. Isso que vocês estão ouvindo de ‘é uma bagunça, convulsão social’, não prestem atenção. Há uma democracia vibrante”, afirmou.

“A democracia brasileira nunca foi tão forte, poderosa, vibrante, não há escândalo de corrupção, os crimes caíram”, disse. Afirmou ainda que, embora o atual nível de crescimento, em torno de 1%, seja baixo, ele é sustentável e deve dobrar no ano que vem.

Guedes também disse que o Brasil “sabe que não pode queimar florestas, nós somos respeitadores da biosfera” e disse que as preocupações dos líderes europeus em relação ao modo como o governo Bolsonaro tem tratado indígenas se deve ao fato de eles, europeus, terem passado séculos “se matando”.

“É natural. Eles olham pra gente e dizem: não queremos que vocês se matem. E a gente responde: ok, aprendemos”.

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Reuters

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Eduardo Bolsonaro havia provocado polêmica ao falar em AI-5 durante entrevista no fim de outubro

‘Não se assustem então se alguém pedir o AI-5’

Em visita aos Estados Unidos para participar de um encontro de 20 CEOs de empresas brasileiras e americanas, Guedes causou mal-estar na segunda-feira ao retomar uma frase do filho do presidente Bolsonaro, deputado federal Eduardo Bolsonaro, de que se a esquerda radicalizasse, poderia ser necessário um novo AI-5.

O Ato Institucional número 5, decretado pela ditadura militar em 1968, fechou o Congresso Nacional, cassou as liberdades individuais e endureceu definitivamente o regime. Guedes reagiu aos discursos de Lula, que tem criticado a política econômica da atual gestão e tem chamado o ministro da Economia de “destruidor de empregos”.

“É irresponsável chamar alguém pra rua agora pra fazer quebradeira. Pra dizer que tem que tomar o poder. Se você acredita numa democracia, quem acredita numa democracia espera vencer e ser eleito. Não chama ninguém pra quebrar nada na rua. Ou democracia é só quando o seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com dez meses você já chama todo mundo pra quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem então se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente?”, disse Guedes durante entrevista a jornalistas, em referência ao período de 20 anos de ditadura militar que o país viveu.

Na ocasião, ele afirmou ainda ainda que a polarização entre Bolsonaro e Lula é responsável pelo projeto de lei enviado pelo Planalto ao Congresso essa semana para instituir o chamado “excludente de ilicitude” para policiais e agentes do Exército que estejam nas ruas em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

Pelo texto do projeto, aqueles que usem de força excessiva no exercício da função não sofrerão punições criminais. “Não sei quem está pedindo pra o povo ir pra rua pra quebrar tudo. Tudo bem? Não sei quem está pedindo pra botar a excludente de ilicitude: ‘Você vem pra rua’, a gente amansa essa bagunça aí na rua. Vamos embora, vamos escalar isso aí.”

A fala sobre AI-5 gerou reações de autoridades como o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o presidente do STF, Dias Toffoli. Questionado pela imprensa nesta terça se havia falado com o presidente a respeito de suas declarações, Guedes não quis comentar.

Nesta terça, o Conselho de Ética da Câmara decidiu abrir processo contra Eduardo Bolsonaro, resultado de duas representações apresentadas pela Rede Sustentabilidade e pelo PT, PSOL e PC do B alegando que o deputado teria quebrado o decoro parlamentar ao falar sobre a possibilidade de um “novo AI-5” em entrevista à jornalista Leda Nagle, no dia 31 de outubro. Ele também será alvo de processo, por decisão do Conselho de Ética, por causa de outra representação, desta vez da deputada Joice Hasselmann (PSL-SP). Antes aliada, ela acusa Eduardo de ter divulgado montagens nas redes sociais para difamá-la em meados de outubro, durante disputa pela liderança do PSL.

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