Por que o Brasil mudou para sempre após participação simbólica na 1ª Guerra Mundial

Por que o Brasil mudou para sempre após participação simbólica na 1ª Guerra Mundial

Imagem com aviadores brasileiros que treinaram no Reino UnidoDireito de imagem
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Aviadores brasileiros em treinamento no Reino Unido

Faltou uma das três assinaturas reservadas ao Brasil no Tratado de Paz de Versalhes, que redesenhou o mundo após a Primeira Guerra Mundial. Há cem anos, em 28 de junho de 1919, quando o documento foi firmado em Versalhes, nos arredores de Paris, um dos delegados plenipotenciários brasileiros à Conferência de Paz sediado na capital francesa ausentou-se para ficar junto à mulher, doente.

Era Raul Fernandes, deputado federal pelo Rio de Janeiro, neto de visconde do Império e primo, pelo lado materno, do futuro governador fluminense Carlos Lacerda. Ao final daquele “glorioso dia de verão” – segundo a historiadora canadense Margaret MacMillan -, o endosso de Fernandes ao texto havia sido dado por procuração, ao lado das assinaturas dos outros dois brasileiros, o deputado federal João Pandiá Calógeras e o professor de Direito Rodrigo Otávio Langaard de Meneses.

A ausência da assinatura de Fernandes – além dele, apenas outros dois delegados da China, Lou Tseng-tsiang e Chengting Thomas Wang, deixaram de firmar o texto, nesse caso por discordar de seus termos – é uma nota de rodapé na malfadada história de Versalhes. O tratado, que prometia uma “paz firme, justa e durável”, não foi ratificado pelo Congresso americano (contra a vontade do presidente Woodrow Wilson, seu principal inspirador). Tornou-se alvo do ressentimento da Alemanha, considerada em suas páginas como única culpada pelo conflito e obrigada a pagar pesadas reparações aos vencedores. Finalmente, para muitos, passou à posteridade como uma das causas da ascensão do nazismo e da Segunda Guerra Mundial. Em 1940, durante a invasão da França pelos alemães, o texto original desapareceu para sempre.

Mesmo com uma assinatura a menos, o Brasil saiu triunfante da Conferência de Paris. O impacto doméstico da participação brasileira pode ser medido pela trajetória do chefe da delegação, Epitácio Pessoa. Senador pela Paraíba, ele foi lançado candidato à Presidência da República enquanto estava na França e, antes da assinatura do tratado, voltou eleito ao Brasil.

Para a maioria dos outros 22 participantes, o futuro foi generoso: tornaram-se ministro de Estado (Calógeras) e do Supremo Tribunal Federal (Meneses), chefe do Estado-Maior do Exército (comandante Alfredo Malan D’Angrogne), embaixadores e deputados. O próprio Fernandes foi, sucessivamente, governador do Rio, consultor-geral da República, deputado constituinte em 1934 e duas vezes ministro das Relações Exteriores.

Esse prestígio reflete, em parte, o lugar privilegiado do Brasil em Paris, ao lado dos vencedores. Apesar da participação simbólica no conflito – declarara guerra à Alemanha em outubro de 1917, 13 meses antes do armistício -, tinha a maior representação do continente americano depois de Estados Unidos e Canadá. Seus três votos eram o mesmo da Itália (que perdera meio milhão de homens na guerra) e o triplo de Portugal (que enviara 60 mil combatentes ao Front Ocidental).

Mais do que isso, o Brasil saiu de Versalhes com praticamente todas as suas modestas reivindicações econômicas e militares atendidas e com um assento na recém-criada Liga das Nações. O país deixaria a organização em 1926, ao ter recusada a aspiração de uma vaga permanente no Conselho.

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Propaganda oficial do treinamento nos Tiros de Guerra

Qualquer que seja o mérito da presença brasileira em Paris e Versalhes, a “Grande Guerra” mudou o país para sempre. Desde 2014, quando o confronto completou cem anos, uma nova geração de pesquisadores dedica-se a reavaliar essa participação.

“Nos últimos anos, historiadores têm começado a repensar os papéis dos chamados pequenos e médios poderes, como o Brasil, na Primeira Guerra Mundial. Esses trabalhos tratam questões militares a aspectos internos como economia e cultura”, diz o doutor em História Cristiano Enrique de Brum, vencedor do Prêmio Cultural Tasso Fragoso 2018 da Biblioteca de Exército com a tese A (des)mobilização de médicos na Grande Guerra: o caso da Missão Médica Brasileira na França (1918-1919).

Do boom do café à crise de 1913

O início da guerra na Europa coincidiu com uma situação interna delicada no Brasil. Desde 1909, o país se beneficiara do crescimento das exportações de café e borracha, carros-chefes de seu comércio exterior, e de um crescente fluxo de investimentos internos no país, especialmente nos setores de finanças e transportes. Se a balança comercial vivia uma bonança, as contas públicas estavam desarranjadas, com sucessivos governos recorrendo a empréstimos externos para financiar seus déficits.

Em 1913, esse arranjo implodiu: um abalo financeiro mundial derrubou os preços do café e limitou a oferta de crédito internacional. Emparedado pelos credores, o governo do presidente Hermes da Fonseca foi obrigado a iniciar uma longa e tortuosa renegociação da dívida externa, que acabou interrompida pela guerra.

Marechal da ativa mesmo durante o exercício da Presidência, Hermes havia sido ministro da Guerra (1906-1909) e negociara com a Alemanha, que tinha o exército mais avançado do mundo, o envio de uma missão militar para reorganizar as forças do Brasil. Ao se eleger presidente, porém, foi forçado a adotar postura mais equidistante: a oligarquia paulista tinha um acordo militar com a França (que treinava desde 1906 a impressionante Força Pública do Estado, com 7.000 homens), enquanto o Itamaraty, sob a chefia do todo-poderoso José Maria Paranhos do Rio Branco, aproximava-se dos Estados Unidos. Ainda assim, o Brasil manteve uma compra significativa de material bélico alemão, jamais entregue em razão da guerra.

“Hermes era casado em segundas núpcias com Nair de Tefé, que era de família alemã de sobrenome Von Hoonholtz, chegada ao Brasil no século 19. O pai de Nair, Antônio von Hoonholtz, havia participado da Guerra do Paraguai e recebera de Dom Pedro 2º o título de Barão de Tefé. Os Von Hoonholtz mantinham relações com os parentes na Alemanha, e Hermes era germanófilo. Chegou a assistir a manobras do exército alemão a convite do kaiser Guilherme 2º”, afirma René Gertz, professor aposentado do Programa de Pós-graduação em História da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).

Num primeiro momento, a guerra foi desastrosa para as exportações brasileiras. Os Aliados não consideraram essencial o café, e somente no final da guerra os Estados Unidos interessaram-se pelo manganês brasileiro. Alemanha e Áustria-Hungria, que compravam 19% do grão produzido no país (e absorviam 20% do total de exportações), tornaram-se inacessíveis em razão do bloqueio britânico no Mar do Norte. Nos últimos cinco meses de 1914, as exportações de café caíram 38% em relação ao mesmo período do ano anterior. O valor total das vendas do produto despencou 28% naquele ano.

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Presidente Brás (no centro) posa com a missão médica brasileira

Fustigado pela crise econômica, Hermes tinha a impopularidade aumentada pelos conflitos internos, como a Revolta da Chibata (Rio de Janeiro, 1910), a rebelião do Padre Cícero (Ceará, 1912-1914) e a Guerra do Contestado em Santa Catarina e Paraná, que só terminaria em 1916. Parceiro econômico dos beligerantes e à sombra da neutralidade dos Estados Unidos, o “marechal presidente” declarou que o Brasil ficaria à margem da guerra. Restava, porém, um desafio: administrar o trânsito marítimo de seus produtos.

Guerra marítima minou neutralidade brasileira

Com a Primeira Guerra, o Oceano Atlântico tornou-se pela primeira vez palco de uma guerra total, na qual navios mercantes e de passageiros também eram alvos. O Reino Unido decretou que praticamente todas as exportações das Américas para as Potências Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria e Império Otomano) seriam consideradas contrabando de guerra, sujeito a busca e apreensão. O Mar do Norte foi declarado zona de guerra, e o Canal da Mancha foi interditado mesmo a barcos de países neutros, sujeitos a inspeções.

Desesperada com um bloqueio que poderia desencadear fome na Alemanha, o regime do kaiser lançou ao mar uma nova arma de guerra, os submarinos (U-Boots), capazes de interceptar e afundar embarcações de qualquer tipo. Os britânicos, que haviam armado seus navios mercantes já em 1913, determinaram que, à vista do inimigo, os comandantes deviam atacá-lo ou, na falta de armamento, abalroá-lo. Finalmente, passaram a utilizar bandeiras de países neutros em seus próprios navios a fim de confundir os alemães.

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Presidente Venceslau Brás assina declaração de guerra à Alemanha

Essa prática criou uma primeira comoção nacional em maio de 1916. Notificado do afundamento do vapor brasileiro Rio Branco por um submarino alemão no Mar do Norte, o governo apurou que a embarcação fora vendida a armadores noruegueses e arrendada a armadores britânicos, além de usar indevidamente a bandeira brasileira.

O incidente contribui, porém, para reforçar as simpatias pelos Aliados numa opinião pública dividida. A crise econômica e a impopularidade do governo, agravada pelo fato de o ministro das Relações Exteriores, Lauro Müller (que sucedera a Rio Branco, morto em 1912), ser filho de um migrante alemão que desembarcara no Brasil em 1829 contribuíram para fazer pender a balança da opinião pública em favor dos Aliados.

Em janeiro de 1917, 15 meses depois da decretação do bloqueio britânico à Alemanha, Berlim informou o Rio de Janeiro de que bloquearia Reino Unido, França, Itália e Mediterrâneo Oriental. Pouco mais de dois meses depois, o paquete brasileiro Paraná foi afundado em águas internacionais na altura da costa francesa. Dois dias antes, contrariando promessa de campanha, o presidente Wilson pedira ao Congresso autorização para declarar guerra à Alemanha e conclamara os países neutros a fazer o mesmo. Sem alternativa, Müller notificou o embaixador alemão no Rio do rompimento de relações com o império. Foi também seu ato de despedida do Itamaraty: em maio, seria substituído pelo aliadófilo Nilo Peçanha. A declaração brasileira de guerra veio em outubro, após o torpedeamento do vapor brasileiro Macau, com o desaparecimento do comandante Saturnino Furtado de Mendonça e do taifeiro Arlindo Dias dos Santos.

“A sucessão de ataques à navegação brasileira foi construindo, ao longo de 1917, um ambiente de revolta popular contra os alemães. A cada novo torpedeamento, indústrias, estabelecimentos comerciais, associações e casas ligadas aos germânicos eram depredadas pela população em fúria”, diz o jornalista e escritor Marcelo Monteiro, autor de U-93: a entrada do Brasil na Primeira Guerra Mundial (BesouroBox, 2014).

Divisão Naval e missões aos Aliados

Além do Brasil, os únicos países latino-americanos a declarar guerra à Alemanha são os da América Central e Caribe, sob forte influência americana: Cuba (que também teve modesta participação militar ao lado dos Aliados), Costa Rica, Guatemala, Haiti, Honduras e Panamá. Outros cinco romperam relações com a Alemanha: Peru, Bolívia, Uruguai, Equador e República Dominicana. Permanecem neutros Argentina, Chile, Colômbia, México, El Salvador, Venezuela e Paraguai.

“Comparada à da Argentina, a atitude do governo brasileiro em relação aos Estados Unidos, durante a guerra, é muito mais conciliatória, conforme o padrão adotado desde Rio Branco. O governo argentino não abre mão de sua neutralidade e aproveita a situação internacional para promover seus interesses econômicos. Ao final da guerra, a Argentina é o sétimo exportador mundial e o peso é a moeda mais forte do mundo. O Brasil, apesar do efeito positivo das relações com os Aliados, passa apenas de décimo-terceiro a décimo-segundo exportador”, afirma Norma Breda dos Santos, professora associada do Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).

A declaração de guerra deixou em aberto a escala da participação brasileira no conflito. No governo, formam-se duas correntes: presença simbólica, limitada a ações de retaguarda (defendida pelo chanceler Nilo Peçanha) e envio de tropas financiadas pelos Aliados (posição do deputado e ex-ministro da Fazenda Pandiá Calógeras). A organização de uma força expedicionária esbarrou na decidida oposição do Reino Unido, que desejava limitar a participação do Brasil ao auxílio ao patrulhamento do Atlântico.

Em acordo com americanos e britânicos, foi acertado o envio de dois scouts (Rio Grande do Sul e Bahia), quatro destróieres (Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí e Santa Catarina) e do transporte de guerra Belmonte – posteriormente, o rebocador Laurindo Pita incorporou-se à frota – para colaborar com as forças aliadas no Atlântico Norte. Denominada Divisão Naval em Operações de Guerra (DNOG) e sob o comando do contra-almirante Pedro Max de Frontin, a frota partiu do Rio no dia 11 de maio de 1918, com destino a Gibraltar.

A participação da DNOG na guerra foi “uma verdadeira catástrofe”, na expressão do historiador Francisco Luiz Teixeira Vinhosa, autor de O Brasil e a Primeira Guerra Mundial (IHGB, 1990). Ao alcançar Dacar, Senegal (então África Ocidental Francesa), em 26 de agosto, a divisão foi acometida pela gripe espanhola, que chegou a atingir 95% do efetivo em alguns navios. “Os doentes caíam ardendo em febre cobertos de suor emplastado de moinha de carvão, sem ter nem sequer quem os auxiliasse a tomar banho e mudar de roupa, pois os poucos válidos que poderiam assistir nisso diminuíam de hora a hora, de minuto a minuto”, escreveu em 1921 o capitão-tenente Orlando Marcondes Machado sobre a tripulação do Rio Grande do Sul.

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Jornal noticia entrada do Brasil na guerra

Além da epidemia, que deixou 156 mortos entre o efetivo, avarias e novas ordens de serviço fizeram com que apenas quatro dos oito navios da divisão deixassem Dacar rumo a Gibraltar em 3 de novembro. Depois de múltiplos incidentes, a força chegou ao destino no dia 10, véspera do armistício.

Em meados de 1918, o Exército enviou duas missões a países aliados para estudar as transformações recentes no ofício da guerra. À França, foi enviada uma delegação de 28 oficiais chefiada pelo general Napoleão Aché. Alguns, como o major Tertuliano Potyguara, foram designados para o front e feridos em combate. Aos Estados Unidos, o Ministério da Guerra enviou em fins de 1917 um grupo que visitou fábricas e arsenais militares e comprou material bélico.

O Brasil ainda enviou um grupo de 10 aviadores para o Reino Unido e uma missão médica à França. Em Paris, a missão chefiada pelo deputado federal e médico Nabuco de Gouveia instalou um Hospital Brasileiro, que prestou assistência a feridos de guerra de novembro de 1918 a julho de 1920 e foi definido como “modelo” pelas autoridades sanitárias da região. Transferido ao governo francês, o hoje denominado Hospital Vaugirard-Gabriel Pallez ostenta em seu jardim uma placa alusiva ao papel da “colônia brasileira de Paris” em sua criação (além de doações privadas, o hospital foi criado e mantido sobretudo com fundos públicos brasileiros).

“Até a Primeira Guerra, o Brasil tinha experimentado uma modernização incompleta. No pós-guerra, o país passará de essencialmente agrário a avanços em vários setores, com espasmos de indústria, reorganização militar e de serviços de saúde”, avalia Cristiano de Brum.

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