‘É muito provável que o dólar supere R$ 6, diz economista

‘É muito provável que o dólar supere R$ 6, diz economista

O dólar tem caído em relação a diversas moedas nos últimos dias, incluindo o real. O movimento é uma reação do mercado às perspectivas de que Joe Biden deve vencer Donald Trump nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. No entanto, para Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, no Brasil esse movimento é de curto prazo, pois os riscos internos ainda devem pressionar o câmbio, com possibilidade inclusive de o dólar bater R$ 6.

Em entrevista ao InvestNews, Agostini citou os possíveis cenários que podem levar o dólar a chegar a esse patamar no Brasil, como uma virada na disputa eleitoral nos EUA ou uma deterioração do cenário político no Brasil que dificulte ainda mais o andamento das reformas econômicas.

“Então, a chance de, do dia para a noite, o real superar R$ 6 por dólar é muito provável”, diz ele, acrescentando que o principal peso sobre o câmbio atualmente é a falta de perspectiva de solução para a situação fiscal no Brasil.

Agostini comentou ainda que, a julgar apenas pelo fluxo positivo de moeda estrangeira no Brasil, seria possível esperar que o dólar estivesse mais baixo em relação ao real. “Só que, quando a gente coloca nessa balança o risco fiscal, aí a gente percebe que o peso tem sido muito mais considerável do que simplesmente a relação entre oferta e demanda.”

Veja abaixo os principais pontos da entrevista:

O dólar vem caindo em relação ao real na medida em que Joe Biden se aproxima da vitória. Como o Brasil pode se beneficiar disso?

Agostini: Essa queda recente do dólar, na verdade, não é só frente ao real. É frente a várias moedas, porque o dólar, nessa crise da pandemia, se fortaleceu muito. Muita gente (investidores) acabou saindo principalmente de países emergentes que elevaram muito os gastos públicos no combate à Covid-19, que foi um aumento de gastos necessário.

Mas o problema, no caso do Brasil especificamente, é que o país não conseguiu até agora apresentar um plano consistente de reversão desse aumento do endividamento no médio prazo. O governo brasileiro insiste na questão do Renda Cidadã, por exemplo, e a gente não tem fonte de receitas para sustentar essa benevolência. E aí, quando você tem um dólar enfraquecido no mundo inteiro, no Brasil ele enfraquece menos.

O que pode significar o dólar no patamar atual, próximo de R$ 5,50? Ele está adequado?

Agostini: No caso do real, era para ter uma cotação muito mais baixa do que está atualmente. Nós temos um volume de entrada de recursos pela frente comercial muito positiva. Tanto que há 5 ou 6 meses o saldo das nossas transações correntes é superavitário. Isso é raro de acontecer. Por conta disso, nós diminuímos muito o risco em reação a moeda estrangeira, a capacidade de pagamento do Brasil em moeda estrangeira.

Então, o real tinha que ter uma cotação frente ao dólar muito menor do que a que estamos vendo hoje. Chegamos a R$ 5,75. Era para estar muito mais baixo se a gente olhar só as relações macroeconômicas, ou seja, oferta e demanda da moeda. Num outro cenário, de ambiente fiscal equilibrado, muito provavelmente o real estaria mais próximo de R$ 4 por dólar, e não de R$ 5,50 como está agora.

Só que, quando a gente coloca nessa balança o risco fiscal, aí a gente percebe que o peso tem sido muito mais considerável do que simplesmente a relação entre oferta e demanda. Justamente porque o governo não apresenta para os investidores um plano sólido, consistente de estabilidade e reversão desse endividamento que explodiu agora.

Essa reação que estamos vendo no mercado de câmbio à eleição nos EUA deve ser apenas de curto prazo por aqui então?

Agostini: Sem dúvida alguma. Enquanto a maioria dos países sofreu uma desvalorização da moeda por conta da postura do Trump, na medida em que o Biden ganhar, esses países vão sofrer menos, ou seja, vão ter menos desvalorização das moedas. O Brasil também. Só que tem essa questão adicional interna do Brasil hoje é diferente do demais países. Você pode até falar: “mas nessa pandemia todos os países aumentaram os gastos públicos”. De fato. Mas nenhum país vinha de uma situação fiscal já deteriorada como o Brasil desde 2014. Nenhum outro país tem um baixo nível de crescimento econômico.

Vamos lembrar que, em 2015 e 2016, o Brasil teve queda do PIB, acumulou mais de 6% de queda nesses dois anos. Em 2017, 2018 e 2019, crescimento de 1%, muito baixo. Nessa década atual, a média de crescimento do PIB brasileiro é de 0,1% no acumulado. Então, é a nova década perdida.

Então, quando os investidores olham para essa condição macroeconômica, fiscal, do Brasil, e veem o governo insistindo, por exemplo, nessa benevolência da Renda Cidadã, é claro que uma forma de cobrar prêmio é desvalorizar a moeda. Pelas últimas medições que eu fiz, no ano, o Brasil é a sexta moeda mais desvalorizada do mundo. (Veja o levantamento completo ao final da entrevista).

O Brasil fica patinando. O motivo é sempre aqui internamente. É a briga do Executivo com o Legislativo, são as reformas estruturais que não ocorrem, é um Executivo que insiste em ampliar gastos quando você tem um ministro da Economia falando que não dá…

O dólar deve bater R$ 6?

Agostini: É difícil a gente falar. Falávamos se chegaria a R$ 4, a R$ 5, e ele foi superado, explorando as resistências. Olha, é possível, não é improvável. A gente chegou a R$ 5,75, e só está desacelerando por um cenário externo. Mas em que cenário ele poderia chegar a R$ 6 e até superar? Primeiro, uma reeleição do Trump iria fortalecer o dólar. Ou ainda: uma nova queda de juros no Brasil, uma insistência do governo no Renda Cidadã – portanto uma perspectiva de aumento da dívida pública -, uma contaminação de risco de imagem do presidente por conta da recente indicação do filho dele nas denúncias sobre o problema das “rachadinhas”, atrapalhando o andamento das reformas.

Então, a chance de, do dia para a noite, o real superar R$ 6 por dólar é muito provável. Se não tiver esse cenário de maior risco o dólar ainda pode chegar a R$ 6? Pode. Porque, como eu disse, existe uma ausência de um plano consistente, concreto, de redução do endividamento do Brasil. Essa ausência transmite ao investidor uma insegurança.

Tanto é que, olha, se discute por exemplo se o governo vai furar ou não vai furar o teto de gastos. Isso deveria ser algo em que não se mexe. Não deveria ter essa discussão.

O grande risco, reforço, está no colo do governo, do Executivo, em querer insistir com essa pauta do Renda Cidadã e não olhar para a questão da austeridade fiscal como deveria.

Veja abaixo o ranking de variação das moedas no acumulado de 2020, feito pela Austin Rating:

RANKING PAÍS VARIAÇÃO NO ANO (%)
Venezuela    -91,0%
Zâmbia       -31,6%
Turquia      -29,3%
Seychelles   -28,7%
Angola       -28,3%
Brasil -27,5%
Argentina    -24,3%
Nigéria      -19,6%
Rússia  -19,2%
10º Belarus  -18,7%
11º Sudão        -18,2%
12º Quirguiz  -17,0%
13º Etiópia      -16,5%
14º Georgia  -16,2%
15º Ucrânia      -16,1%
16º Tadjiquistão  -14,4%
17º Uruguai      -13,4%
18º Moçambique   -12,7%
19º Islândia     -12,7%
20º Colômbia     -12,6%
21º Cazaquistão  -11,4%
22º Lesoto       -11,1%
23º África do Sul                   -11,1%
24º Namíbia      -11,1%
25º Suazilândia  -11,0%
26º Jamaica      -10,4%
27º República Dominicana            -9,9%
28º Mauricio     -9,1%
29º México       -8,9%
30º Sudão do Sul -8,5%
31º Uzbequistão  -8,3%
32º Paraguai     -8,1%
33º Argélia      -7,6%
34º Peru         -7,5%
35º Curaçao -7,3%
36º Quênia       -6,9%
37º Costa Rica   -6,8%
38º Botsuana     -6,3%
39º Papua Nova Guine                -4,5%
40º Noruega      -4,3%
41º Nepal        -4,0%
42º Malavi       -3,7%
43º Botão        -3,7%
44º Mongólia     -3,6%
45º Indonésia    -3,5%
46º Índia        -3,5%
47º Mauritânia   -3,3%
48º Paquistão    -3,3%
49º Tailândia    -3,3%
50º Hungria  -3,2%
51º Armênia  -3,0%
52º Nicarágua    -2,9%
53º Gambia       -2,8%
54º Gana         -2,8%
55º Uganda       -1,9%
56º Sri Lanka    -1,7%
57º Iêmen        -1,4%
58º Malásia      -1,4%
59º Gibraltar    -1,3%
60º Tonga        -1,1%
61º Polônia  -1,1%
62º Guatemala    -1,0%
63º Tanzânia  -0,9%
64º Reino Unido  -0,8%
65º Kuwait    -0,8%
66º Cingapura    -0,5%
67º Canada       -0,3%
68º Bangladesh   -0,2%
69º Chile        -0,1%
70º Guiana       0,0%
71º Vietnã       0,0%
72º El Salvador  0,0%
73º Iraque       0,0%
74º Jordânia     0,0%
75º Emirados Árabes Unidos          0,0%
76º Barbados     0,0%
77º Cayman, Ilhas                   0,0%
78º Trinidad E Tobago               0,0%
79º Eritreia     0,0%
80º Omã          0,0%
81º Irã 0,0%
82º Maldivas     0,0%
83º Arábia Saudita                  0,0%
84º Bolívia      0,1%
85º Samoa        0,2%
86º Nova Zelândia                   0,2%
87º República Tcheca           0,3%
88º Moldávia 0,3%
89º Macau        0,4%
90º Hong Kong (dólar) 0,4%
91º Fiji         1,2%
92º Camboja      1,3%
93º Vanuatu      1,4%
94º Tunísia      1,7%
95º Líbia        2,0%
96º Egito        2,2%
97º Israel       2,5%
98º Afeganistão  2,6%
99º Coreia do Sul  2,7%
100º Ilhas Salomão  3,2%
101º Albânia  3,3%
102º Romênia      3,5%
103º Austrália    3,5%
104º Croácia  3,7%
105º Cabo Verde 4,5%
106º Marrocos     4,6%
107º Japão        4,7%
108º Taiwan 4,9%
109º Filipinas    5,0%
110º Zona Do Euro 5,2%
111º Servia       5,2%
112º Macedônia  5,2%
113º Bulgária 5,3%
114º China  5,3%
115º Hong Kong (renminbi) 5,4%
116º Dinamarca    5,6%
117º Suíça        6,5%
118º Suécia       7,0%
119º Libéria      7,0%
120º Mianmar  14,5%
121º Haiti        62,7%

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