‘É difícil prever por quanto tempo o otimismo vai prevalecer’, diz economista

‘É difícil prever por quanto tempo o otimismo vai prevalecer’, diz economista

Apesar da suspensão dos testes da vacina chinesa da Sinovac, a Coronavac, no Brasil, o mercado financeiro seguiu otimista na terça-feira (10), ainda repercutindo a tendência positiva do cenário externo. Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, comenta que “o mercado está olhando lá fora, que está pegando muito mais”.

Na terça, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) anunciou a suspensão dos testes da Coronavac, vacina desenvolvida pela Sinovac em parceria com o Instituto Butantan, em São Paulo. Mesmo assim, o Ibovespa, principal indicador da bolsa brasileira, teve o sexto dia seguido de alta, no patamar dos 105 mil pontos.

Vieira aponta que é “dificílimo” prever por quanto tempo o otimismo deve prevalecer no mercado. “Ainda depende de um fator político que é a situação das eleições nos Estados Unidos, um fator sanitário que é a produção da vacina”, diz. “Sinceramente, não tenho nem ideia de como o mercado vai estar efetivamente amanhã.”

O economista comenta ainda que as preocupações com a situação fiscal do Brasil seguem fortes entre os investidores. “A gente está esperando. E é ridículo a gente estar esperando porque, na verdade, é a coisa mais importante que a gente deveria estar pensando.”

Veja abaixo a entrevista completa:

Como o mercado está reagindo ao vai e vem da Coronavac?

Vieira: Não está reagindo. O mercado está olhando lá fora, não adianta. Lá fora está pegando muito mais. Ainda eleição dos Estados Unidos, com vacina no exterior. Mesmo porque isso (suspensão dos testes da Coronavac) ainda não é um elemento interruptor. Isso ainda não faz mercado, você não vê nada que possa efetivamente fazer uma mudança de rumo do cenário atual e esse tipo de coisa.

Quando as notícias sobre a chegada de uma vacina mexem mais com o mercado?

Só quando for lançado efetivamente. Só quando pudermos ver, por exemplo, que começou a produção. Aí a gente vai saber quando é que vai começar a distribuição. Esse é um ponto importante de se observar. Sequer sabemos ainda quando é que vai começar a produção da vacina em massa.

Por que o cenário externo continua pesando tanto sobre os mercados aqui nos últimos dias?

Vieira: Por mais que o Trump judicialize a eleição, não se vê muita possibilidade de que isso possa se converter em algo diferente, ou seja, numa vitória do Trump. Vai acabar sendo a vitória do Biden, mesmo que haja algumas revisões.

Esse otimismo do mercado deve prevalecer ainda por quanto tempo?

Vieira: É dificílimo a gente dizer, porque, na verdade, ainda depende de um fator político que é a situação das eleições nos Estados Unidos, um fator sanitário que é a produção da vacina. Ou seja, não se pode dizer “o mercado vai continuar em alta”. Eu não sei nem como o mercado vai estar amanhã.

Enquanto isso, a questão fiscal brasileira ficou em segundo plano para o mercado?

Vieira: Isso não está em segundo plano, está em primeiro plano o tempo todo aqui no Brasil. Mas o ponto importante é que você tem um cenário de aguardo. A gente está esperando. E é ridículo a gente estar esperando porque, na verdade, é a coisa mais importante que a gente deveria estar pensando: reforma tributária, reforma administrativa, pacto federativo. Tudo que é relacionado ao fiscal. E a classe política aqui está meio que largando mão, deixando para depois da eleição. Aí vem o Rodrigo Maia (presidente da Câmara dos Deputados), fala um negócio, mas na hora de botar o troço para rodar na realidade, não põe. A classe política como um todo está complicada.

Por que a bolsa respondeu positivamente à notícia sobre o avanço da vacina da Pfizer, mas não reagiu à suspensão da Coronavac?

Vieira: Porque o pessoal prefere a Pfizer (risos). Por mais que as pessoas sejam pragmáticas, eu não conheço ninguém que falou que “se vier a vacina chinesa eu tomo”. Talvez, por culpa da China.

Como assim?

Vieira: Até essa questão da guerra comercial, quando a gente começa a observar de maneira um pouco mais fria, você vê que o Trump — e é uma coisa que eu não canso de citar —, ele tem um problema grave com a questão de forma, mas não de conteúdo. Ou seja, a forma como ele faz as coisas às vezes é tão ruim que dá a impressão de que ele está errado. Mas na questão da China, por exemplo, ele tinha razão na maioria dos pleitos. Em especial as questões de propriedade intelectual.

Nesse contexto, qual e a questão sobre a vacina chinesa para o mercado?

Vieira: A questão da vacina é a desconfiança que a China traz. Lá fora você tem esse posicionamento bem estranho da China em relação à guerra comercial. Ela não tem razão na maioria dos pleitos, mas Trump não sabe lidar com isso. O temperamento explosivo dele faz com que ele acabe tendo culpa naquilo que, na verdade, ele não deveria ter. Isso é um dos problemas. Tudo da China se tem uma certa desconfiança. O que se compra da China, tem desconfiança. E, de repente, todo mundo vai confiar numa vacina?

Pode ser um preconceito, em parte alimentado pelas atitudes que a China tomou nos últimos anos. É essa desconfiança básica que faz com que, quando chega uma vacina de uma empresa alemã, as pessoas estão achando que é mais confiável. Não adianta dizer que não estão. De repente a vacina chinesa é até melhor, não sabemos. Mas existe, sim, esse fator que, infelizmente, em parte a China que alimentou. Essa desconfiança as pessoas têm.

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